Entre e não espere saída só ecos e ruídos. Aqui não existe linha reta. Alguns textos são invenção minha, outros são pedaços de conversas de bar roubados de amigos e transformados em palavra. Uns nasceram da insônia, outros de ressaca. É uma mistura de devaneio, desabafo e ficção barata. Nada garante que faça sentido. O que você vai encontrar é um espelho rachado: reflexos distorcidos de como eu vejo o mundo, ou de como o mundo insiste em se mostrar. E se em algum momento você se enxergar nesses fragmentos, não se iluda. Não é especial. Só tá na mesma boiada errante, tropeçando por aí em busca de um gole a mais.
VER TEXTOS
Acordei mais velho hoje.
E, surpreendentemente, ok com isso.
Ainda gosto de cerveja,
ainda falo sozinho,
ainda desconfio de promessas muito limpas.
Mas aprendi uma coisa rara
nem toda alegria precisa fazer barulho.
Hoje eu celebro as pequenas vitórias
que ninguém aplaude
acordar sem ódio,
rir sem culpa,
olhar pra trás sem vontade de quebrar tudo.
Não fiquei rico,
não virei sábio,
não resolvi a vida.
Mas continuo aqui
inteiro o suficiente,
quebrado no ponto certo.
Gosto mais de quem sou agora.
Menos ansioso pra provar,
menos disposto a implorar,
mais confortável em existir.
Se isso é felicidade,
ela não veio de fogos nem de frases prontas.
Veio sentar do meu lado,
abriu uma cerveja
e disse:
“relaxa, hoje tá tudo bem.”
Então hoje eu brindo a mim mesmo
não ao herói,
não ao vencedor,
mas ao cara comum
que aprendeu a aproveitar a própria companhia.
Mais um ano.
Ainda aqui.
E, pela primeira vez em muito tempo,
genuinamente contente com isso.
Passei tempo demais acreditando que o mundo cobrava pressa.
Que se eu não corresse, seria esquecido.
Mas hoje entendo o tempo não é inimigo, ele é cúmplice.
A vida não pede velocidade, pede presença.
Tem dias em que o coração é Charlie Brown Jr,
gritando que a vida é curta demais pra esperar o momento certo.
E tem outros em que é Renato Russo,
sussurrando que temos todo o tempo do mundo pra viver o que é verdadeiro.
E talvez o segredo esteja aí
em viver com a urgência de quem sabe que o agora é frágil,
mas com a serenidade de quem entende que o essencial não se apressa.
Sonhar é urgente,
mas amadurecer o sonho exige tempo.
A vida não é uma corrida é uma travessia.
Alguns dias pedem impulso, outros pedem pausa.
E o equilíbrio é aprender a dançar entre os dois.
Hoje eu vivo com pressa pra sentir,
mas sem ansiedade pra chegar.
Aprendi que o tempo é o mesmo
o que muda é o modo como a gente o habita.
E é por isso que sigo
vivendo meus sonhos com intensidade,
mas em paz com o ritmo.
Porque o tempo é curto, sim,
mas o que é verdadeiro...
esse tem todo o tempo do mundo.
O mundo não acabou, só ficou bonito demais pra ser de verdade.
E é por isso que a gente não sente mais nada.
Acordo todo dia com essa luz artificial na cara, esses sorrisos digitais, essa alegria que fede a filtro.
As pessoas viraram personagens que se vendem em parcelas corpo, opinião, silêncio, tudo negociável.
Tem gente que chama isso de liberdade.
Eu chamo de pornografia emocional.
A vida virou um grande set de filmagem:
a mulher finge que é feliz com o namorado,
o chefe finge que acredita no propósito,
e eu finjo que ainda quero estar aqui.
“Sampa”, “Pauliceia”, “Terra da Garoa”, “Selva de Pedra” tudo nome bonito pra disfarçar o caos.
Aqui todo mundo corre, mas ninguém sabe pra onde.
É o único lugar do mundo onde o relógio tem mais autoridade que Deus.
O amor?
Morreu atropelado na faixa da pressa.
Sufocado por legendas bem escritas e olhares ensaiados.
Hoje paixão se mede em curtidas e saudade é produto descartável.
Quem sente demais vira problema, quem sente de menos é promovido.
Eu também me perdi aqui
entre o barulho dos motores e o silêncio das almas cansadas.
Me perdi na pressa, no orgulho, no medo de ser o último a chegar.
Porque em São Paulo, sentir é atraso.
E parar pra respirar é quase um pecado capital.
A cidade corre dentro da gente.
A buzina já toca antes do pensamento,
o café esfria antes do gole,
a vida acontece antes que a gente perceba.
Todo mundo quer ser visto, mas ninguém quer ser tocado.
Todo mundo quer chegar, mas ninguém sabe aonde.
E no meio da multidão,
eu descubro que solidão é o único lugar onde ainda se ouve o coração bater.
Mas ninguém fala.
Porque se desligar a câmera, o mundo acaba.
E ninguém quer ver o que sobra quando as luzes se apagam.
Então eu sigo correndo,
com o crachá pendurado e o olhar vazio,
fingindo que ainda acredito no amanhã.
Talvez eu só queira encontrar um lugar onde o tempo ande mais devagar,
onde o toque ainda valha mais que o like.
Mas São Paulo não oferece isso.
Aqui o amor tem pressa,
a fé tem prazo,
e o descanso é luxo.
E quando me perguntam quem eu sou,
eu só digo:
“Sou mais um perdido na correria
correndo pra não morrer parado.
Ele sempre gostou da estrada à noite.
Daquelas rodovias longas, desertas, que parecem atravessar o próprio tempo.
Faróis acesos, o ronco do motor como trilha sonora,
o corpo relaxado, mas desperto e a mente limpa.
É ali, entre uma curva e outra, que ele se sente inteiro.
O velocímetro sobe, o coração acompanha,
e por alguns segundos o mundo parece parar.
Não há passado, nem futuro,
só o presente vibrando em alta rotação.
O vento entra pela janela, frio, cortante,
e ele ri sozinho porque é isso, é exatamente isso que ele buscava.
Não destino, não resposta, só aquela sensação absurda de estar vivo.
A adrenalina é um tipo de oração que o corpo faz sem palavras.
O sangue corre, o peito expande, e tudo que era dor vira energia.
Ali, a liberdade é física, tangível se mede em quilômetros, em curvas bem-feitas,
em segundos em que o medo esquece que existe.
Ele aprendeu que felicidade não mora em lugares,
mas em momentos que cabem dentro de um piscar de olhos.
E na estrada, esses momentos são infinitos:
o reflexo das luzes no painel,
o som grave cortando o silêncio,
a força invisível empurrando o carro,
e o corpo leve entregando o controle pro instinto.
Alguns diriam que é perigo,
mas pra ele, é comunhão.
É o instante em que tudo o que ele foi, é e será
se alinha num só ponto.
Como se o universo inteiro dissesse:
Agora é teu turno. Vai.
Ele não foge.
Não busca.
Só segue.
Com a calma de quem entendeu que a vida é curta demais pra andar devagar.
E enquanto o asfalto se estende à frente,
ele sente de novo aquela coisa antiga e simples:
a felicidade pulsando no peito,
a alma gritando em silêncio,
e o coração dizendo, em voz baixa,
é isso… agora é só viver.
Ele vive duas vidas.
A que todo mundo comenta: o cara rodeado de mulheres, brindando como se a madrugada fosse eterna.
E a outra, a escondida, que quase ninguém percebe: o silêncio pesado depois da festa, o buraco no peito que nenhuma gargalhada preenche.
Na mesa do bar, ele parece invencível. Engraçado, ousado, irresistível. Mas eu sei que aquilo é só máscara. Basta o primeiro gole, o cigarro aceso, e nasce nele um outro um monstro que ele mesmo admira, porque dá coragem, porque diverte, porque conquista.
As mulheres gostam desse cara. Os donos de bares agradecem.
Mas quem fica depois para ver o preço que ele paga?
Esse “outro” não existe à toa. É a forma que ele encontrou de tapar um vazio que nunca cicatrizou.
Álcool, corpos que não ficam, cigarros baratos é isso que segura as rachaduras dele.
E talvez o mais estranho seja que ele não parece querer se curar.
Como se essa vida dupla, essa tragédia ambulante, fosse a única coisa que o mantém de pé.
Bagunçado, doído, mas vivo.
Dizem que ele talvez tenha tomado a decisão errada. Não por maldade, nem por descuido. Mas porque… ela apareceu. E aí ficou a pergunta que não desgruda: Por que não antes? Por que justo agora? Essa conexão existe. Real, intensa, quase assustadora. Dessas que não pedem licença, só acontecem e pronto. Talvez fosse só isso: uma conexão. Mas parecia mais. Como se houvesse ali uma sintonia que ia além da lógica, algo que completava um pedaço que ele nem sabia estar faltando. Entre a vontade de falar e o medo de perder, ele se calou. Com medo de estragar tudo, de perder o que tinha. Mas também com medo maior ainda: o de passar a vida fingindo que nada tinha acontecido. Talvez um dia ele se dê os parabéns por ter tido coragem. Ou talvez se perdoe pelo silêncio. Pela escolha da zona segura. Pelo não aceito da vida, do destino ou dele mesmo. Dói? Claro que dói. A dúvida, o silêncio, os olhares que carregam o peso de tudo o que nunca foi dito. E ainda assim ele segue. Segue acreditando que, se tiver que ser, será. Mesmo improvável. Mesmo tarde demais. No fundo, torce. Torce para que ela também sinta. Para que do outro lado exista alguém pensando as mesmas coisas, escrevendo em um diário qualquer, com música triste ao fundo. Torce para que ela também esteja presa a algo que não preenche mais, mas que o medo ainda sustenta. E torce, principalmente, para que um dia os caminhos se libertem. Para que não seja mais só silêncio ou cumplicidade disfarçada. Mas a liberdade de, finalmente, dizer: “eu sabia.”
Irmão, eu tatuei na pele: Overthinking over analyzing separates the body from the mind.
Quem grava isso não tá buscando poesia, tá se confessando. Eu já entendi: pensar demais é um jeito educado de se envenenar devagar.
Então chega. Por um tempo — ou pelo tempo que precisar — eu só vou fazer. Sem roteiro, sem pesar cada passo, sem essa liturgia do arrependimento. Cansei de trilha sonora de sofrimento, dessas que a gente põe pra sangrar bonito: November Rain, Wish You Were Here. Agora, se for ter música, é barulho de ferro batendo no concreto, é Pontes Indestrutíveis. E pra falar a verdade, nem precisei catar cacos: meu coração não quebrou, ele só ficou duro demais pra rachar.
Não é discurso, é prática. A máscara de oxigênio é minha e vai primeiro na minha cara, porque eu sei como é faltar ar no peito. Quem chamar de egoísmo, que chame. Quem quiser sair, que saia. Eu não vou mendigar presença. Nem perder vida explicando o óbvio a quem finge ser surdo.
Quero me aventurar, mas não na estrada. Quero me jogar dentro de mim mesmo. Revisitar vontades que ficaram mofando num canto: beber até esquecer o dia da semana, foder sem culpa, dormir no chão de um quarto vazio só pra sentir que ainda tenho corpo. Quero ser a porra da minha melhor companhia. Olhar um pôr do sol qualquer e não precisar de testemunha. Ver a lua cheia e entender que ela brilha igual, seja pra uma multidão ou só pra mim.
Não fazer isso é querer represar um rio. Ele sempre transborda. E quando transborda, não tem muro que segure: ou você aprende a nadar, ou vira cadáver boiando. Eu escolhi nadar.
Não espero companhia. Não caço plateia. Pela primeira vez, tô vivendo por mim, comigo, pra mim.
E no final, não tem cena de cinema. Não tem música subindo, nem aplauso. Só sobra o viajante.
E a estrada, que agora corre inteira por dentro dele.
Ah, drogas e mulheres. Meu assunto preferido, porque no fundo é a mesma coisa: química entrando no corpo, bagunçando tudo, deixando rastro de destruição. É até redundante o mundo gira nesse eixo torto, ou pelo menos o meu.
Se você olhar friamente, um homem não precisa de muito pra se destruir. Uns 20, 30 anos de álcool e pó, e pronto: um cronômetro interno que nunca para de girar, tic-tac até o colapso final. Mas há algo que detona mais rápido que qualquer seringa, qualquer garrafa, qualquer comprimido.
O amor. Não o de propaganda, com final feliz e música de fundo. Falo do amor maldito, não correspondido, aquele que só um dos lados carrega como câncer. É ele que te corrói por dentro como ácido, e o pior: não tem dosagem, não tem tratamento, não tem alta hospitalar.
A droga mata o corpo, é verdade. Mas o amor errado esse mata o homem inteiro. Mata de um jeito burocrático, kafkiano: não te dá direito de defesa, não te entrega sentença, só te prende num processo sem fim. Você respira, mas já não vive. E isso é pior do que qualquer overdose.
Será que tô condenado a ser isso? O réu que escreve sua própria sentença em páginas sujas, repetindo a mesma ladainha como um burocrata carimbando papéis sem sentido. Talvez já seja tarde demais o processo começou antes mesmo de eu nascer. Tentar largar os prazeres baratos, o cigarro depois do sexo, a bebida que me apaga antes de me salvar. Buracos no peito não se tampam: eles crescem, como rachaduras num prédio abandonado.
Não me importo com o que o mundo pensa o mundo é só mais um juiz invisível, indiferente, arquivando meu nome em pastas mofadas. Mas e você? Você ainda acha que existe chance? Ou também já percebeu que felicidade virou pornografia emocional um fetiche inalcançável, sempre anunciado e nunca entregue?
No fim, somos só germes que respiram, esperando o esquecimento como quem espera o próximo número da fila. Resíduos humanos, restos que nem o lixo quer.
Anoitece, sempre anoitece. As pessoas passam pela minha cama como figurantes de um teatro falido. Entram, tiram a roupa, vão embora. No chão, só sobram calcinhas e cuecas espalhadas, como se o quarto fosse depósito de intimidades mortas.
O tempo passa, as noites seguem, e eu continuo nesse labirinto que eu mesmo construí. Talvez mereça. Talvez não. Mas a pergunta martela como um carimbo no papel: existe saída desse corredor ou já tá tudo condenado ao esquecimento?
Os dias passam, as noites também. Estações? Palhaçada: só troca de cenário pro mesmo teatro miserável. Eu fico aqui, mofando como um réu esquecido no corredor do tribunal, esperando uma sentença que nunca chega. Dor sobre dor, não como punição divina, mas como rotina burocrática da existência. A vida não falhou comigo ela apenas nunca teve intenção de funcionar.
Sou eu? É você? Ou sou apenas um protocolo carimbado com a palavra Talvez que nunca vira definitivo? O calendário engole dias como o Estado engole nomes: ninguém sabe se foi fim de mês ou só mais uma segunda-feira jogada fora. O sol me incinera de manhã, a noite tenta apagar, mas o incêndio permanece um fogo que não aquece, só consome.
Viver, sorrir, gritar pros céus. Que piada barata. Eu corri como cachorro atrás do próprio rabo, gritei até perder a voz, me quebrei inteiro pra tentar inventar um recomeço. E no fim? No fim eu fiquei olhando o fogo crepitar na lareira enquanto você aquecia outra cama, em outra vida que nunca coube na minha.
Mas esse fogo não é só da lenha é o incêndio dentro de mim. Já queimei tanto, já rolei tanto na lama, que nem sei mais se havia alguém antes desse caco que insiste em escrever. O velho eu morreu, e este idiota que sobrou ainda ousa chamar de amor aquilo que só tem gosto de cinza.
No fim, serei pó. Mas nem a dignidade de ser pó humano serei poeira de arquivo, esquecido numa gaveta que ninguém abre. Menos do que já fui, mais do que esta sobra que finge existir. Um coração que já não lembra nem o nome daquilo que amou. Sou só a noite. E a noite não é prelúdio da manhã é prisão perpétua sem direito a recurso.
Eu me acostumei com a vida ruim, largado, sozinho.
A felicidade apareceu de repente, e eu não tive tempo de chutá-la pra fora. Talvez eu até tenha gostado. Já sabia que ia azedar, mas deixei ficar. Um gole de alegria, mesmo com prazo de validade.
O preço veio logo depois: cada sorriso virou cobrança em sofrimento. E o saldo final? Essa frase martelando: não sou feliz. Nem lembro mais como era viver sem esse pensamento.
Eu choro, eu grito, eu falo sozinho. Encosto na alma por um segundo e fujo. Tento dormir, mas só bagunço lençol. Você me bagunçou.
Quase meia-noite, eu berro no quarto vazio. Ninguém escuta. Choro de novo, não pela perda, mas pela lembrança do alívio falso que me fazia melhor do que sou agora.
Dentro de mim, uma contagem regressiva já começou. Se tudo foi embora, talvez eu vá junto. Não sou mais nada: nem feliz, nem triste. Só vazio.
Um buraco corroeu o que sobrou e o pior é que até ele parece menos importante que a saudade de um passado que talvez nunca tenha existido de verdade.
Insegurança? Isso é talento humano.
A gente compara o próprio lixo com a vitrine brilhante dos outros e se sente o palhaço triste da festa.
Por dentro, chorando; por fora, sorrindo essa maquiagem barata que engana o mundo.
Mas, olha só, talvez a resposta não esteja na fuga.
Talvez esteja na própria dor.
Não resolve, não cura, não salva.
Mas, pelo menos, distrai enquanto o tempo mastiga a gente.
A felicidade? Meu “eu” perguntou onde ela estava.
Respondi que deve ter se perdido em alguma curva da vida, como garrafa caída na sarjeta.
Ele insistiu, querendo saber da “verdadeira felicidade”.
Ri na cara dele. Verdadeira o quê?
Estamos condenados de fábrica, uma praga genética: nascer já é carregar no colo um pacote de inseguranças, traumas mal digeridos e culpas herdadas.
Não é azar. É sentença.
E, meu amigo, isso não tem fim.
Hoje eu a vi.
Não tremeu nada em mim. Nenhum arrepio, nenhum coração batendo feito tambor de guerra. Só silêncio. Talvez eu não a ame mais. Talvez seja a tal liberdade que todos pregam. Ou talvez seja só mais um buraco no peito, desses que a gente preenche com álcool, cigarros e risadas fingidas.
Engraçado como o corpo aprende a sobreviver ao próprio velório. A gente morre por dentro e continua batendo ponto, pagando conta, enchendo o copo.
Morrer não é só apodrecer debaixo da terra. É esse espetáculo diário de seguir vivo sem sentir porra nenhuma.